Quase todo mundo que testa o ChatGPT para aprender inglês começa do mesmo jeito. Você abre um chat novo, digita “Let’s have a conversation in English” e recebe uma resposta simpática e impecável. Nos primeiros dias parece que finalmente apareceu alguém para treinar. Depois as conversas vão ficando curtas, e uma noite você percebe que faz uma semana que não abre o chat.
Não foi uma ideia ruim. Um chatbot de IA ajuda bastante em várias partes do estudo, e os motivos que fazem a prática de conversação com ele esfriar são bem específicos. Primeiro, o que ele faz bem.
No que o ChatGPT ajuda quem está aprendendo inglês
Ele explica com paciência e na profundidade que você pedir. Se você não entende por que em inglês se diz “I’m 25” e não “I have 25 years”, pode perguntar, ler a explicação, perguntar sobre a exceção que acabou de lembrar e pedir mais cinco exemplos. Livro de gramática não responde a segunda pergunta.
Ele também corrige bem o que você escreve. Cole um e-mail em inglês e ele aponta a preposição errada, o tempo verbal trocado e aquela frase que está certa mas que nenhum nativo falaria assim. E para vocabulário ele é um bom parceiro de treino, porque consegue criar frases novas com as palavras que você está aprendendo, em vez de mostrar sempre o mesmo flashcard.
Três prompts que funcionam bem:
- “Me explica os phrasal verbs com ‘get’ mais usados no dia a dia. Dá exemplos de trabalho e de casa, e no final me passa três frases para eu completar sozinho.”
- “Vou colar um e-mail que escrevi em inglês. Corrige e depois lista cada mudança com o motivo em uma linha. Não mexe no que já estava certo.”
- “Me testa nestas 15 palavras em inglês, uma de cada vez. Me dá uma frase em português para traduzir, espera minha resposta e só depois mostra a versão certa.”
Os três deixam claro o seu nível, o formato que você quer e o que ele não deve fazer, e com esses limites ele responde muito melhor.
Onde ele deixa a desejar como parceiro de conversação
Falar é uma habilidade diferente de saber coisas sobre o idioma, e o jeito padrão do ChatGPT atrapalha em quatro pontos. Tanto faz se você digita ou usa o modo de voz. Dá para corrigir qualquer um deles por uma ou duas mensagens, mas eles costumam voltar.
Ele fala no nível dele, não no seu
Digamos que você está há alguns meses no inglês e escreve “Hello, I want practice. I like very much the music.” A resposta típica vem com três frases compridas, uma expressão idiomática, um phrasal verb e duas perguntas no final sobre quais bandas você curte e o que acha do último álbum de alguma banda. Tudo certo, e tudo no nível de quem fala inglês há anos. Você pode pedir para ele simplificar, e ele simplifica por um tempo. Algumas mensagens depois, as frases cresceram de novo.
Quase nunca desacelera nem explica de outro jeito
Quando um amigo percebe que você se perdeu, ele repete com palavras mais fáceis ou aponta para o que está falando. Um chatbot não tem como ver que você se perdeu. Se você não entendeu, precisa parar, avisar e quase sempre voltar para o português para explicar qual parte ficou confusa. Essa troca quebra a conversa, porque aí você já não está falando em inglês, está falando sobre o inglês.
Corrige demais, ou não corrige nada
Se você pede correção, muitas vezes recebe uma lista depois de cada mensagem: o artigo sobrando, a preposição, um verbo melhor, um comentário sobre formalidade. Está certo e cansa, e o bate-papo vira correção de prova. Se você pede para ele não corrigir, ele pode deixar passar “I have 25 years” para sempre.
O que mais ajuda na fala fica no meio do caminho. Quem escuta bem repete o que você quis dizer, do jeito certo, e segue em frente: “Oh, you’re 25? Nice, I’m a bit older.” Você ouve a forma correta e a conversa não para. Professores chamam isso de reformulação (em inglês, recast), e é difícil fazer um chatbot manter isso sem você ficar lembrando.
Não tem motivo para falar
Normalmente é isso que encerra a experiência. Um papo com um bot não tem nada em jogo e não vai a lugar nenhum. Depois de “what did you do today?” e “what are your hobbies?”, o assunto acaba, e ele fica sem assunto junto com você, com toda a educação. Fora da janela do chat, as pessoas conversam porque precisam de alguma coisa, seja um caminho, um preço ou um favor. Sem isso, até o aluno mais animado desanima.
O que ajuda de verdade a praticar inglês falado
Já se sabe bem o que faz uma conversa servir de treino. A outra pessoa fala um pouco acima do seu nível e simplifica quando você se perde. Mostra o que quer dizer com as mãos, com o rosto e com o que está em volta. Devolve seus erros corrigidos sem fazer drama. E a conversa é sobre alguma coisa, então o que você diz tem consequência.
Um amigo paciente, um bom professor ou um intercâmbio de idiomas te dão quase tudo isso. A gente criou os jogos do mossyrune para cobrir essa mesma parte quando nada disso está à mão. São jogos em 3D que rodam no navegador, até no celular. Você anda pelo cenário e conversa com os personagens, por voz ou digitando, e o que você fala muda o que acontece.
Em um deles você precisa achar uma bomba antes que o tempo acabe e ela exploda. Para isso precisa ouvir o comandante, arrancar o que um informante sabe, comprar um alicate e convencer um professor a te passar o código para desarmar. Em outro você está preso numa masmorra com um prisioneiro velho, um mercador nervoso, um fantasma dramático e um guarda entediado, e sai de lá com suborno, com bajulação ou descobrindo uma combinação de três números, e a porta continua trancada até você dizer a coisa certa.
No nível iniciante os personagens usam frases simples, falam mais devagar, dão dicas quando você trava e reformulam seus erros como o amigo do exemplo acima. Eles gesticulam e mostram aquilo de que estão falando, então o guarda balança a cabeça quando diz “no”. Se faltar palavra, você pode responder em português, e o personagem entende e responde em inglês (a página para praticar inglês com IA conta isso com mais detalhe). A IA avalia o que você quis dizer, não as palavras exatas, então uma frase meio torta que passa a ideia vale. No avançado todo esse apoio some e todo mundo fala na velocidade de nativo. Dá para mudar cada ajuste separadamente, até no meio da partida.
Uma conta gratuita já vem com créditos suficientes para um jogo completo.
Então, o ChatGPT serve como parceiro de conversação?
Por um tempo, serve. Se você der a ele um papel e um nível claros, algo como “você é um garçom em Nova York, eu sou iniciante, usa frases curtas, repete certo o que eu falar errado e não me passa lista de correções”, ele segura uma conversa em inglês bem razoável. O problema é que quem vai ter que fiscalizar essas regras é você, e a cada sessão você vai precisar inventar um motivo para continuar falando.
A divisão que costuma dar certo é usar o ChatGPT para o que ele faz bem, que é explicar, corrigir o que você escreve e revisar vocabulário, e treinar a fala em um lugar feito para falar. Pode ser uma pessoa ou um jogo em que o único jeito de avançar é abrir a boca. Muita gente acaba usando as duas coisas, e nada impede que o chatbot seja quem te explica, no dia seguinte, a estrutura em que você travou.